sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Poeta roraimense ganha Bolsa Funarte de Criação Literária

A Fundação Nacional de Artes (Funarte) publicou quarta-feira (4) a relação de 60 projetos contemplados com a Bolsa Funarte de Criação Literária. Os autores receberão R$ 30 mil para desenvolver textos inéditos nos gêneros lírico (poesias) ou narrativo (romances, contos, crônicas e novelas). O investimento total da Funarte no programa foi de R$ 1,9 milhão.

Foram inscritos neste ano 79 projetos de escritores da região Norte. Roraima tem, pelo segundo ano consecutivo, um representante entre os cinco selecionados. O felizardo de 2010 é Jaider da Silva Esbell, com o futuro livro "Terreiro de Macunaíma - mitos, lendas e estórias em vivências".

Os projetos foram selecionados por uma comissão formada por dez especialistas em literatura — Roberval Pereira, Evelina Hoisel, Luis Pimentel, Carlos Didier, Alvaro Costa e Silva Filho, Salomão Laredo, João Carlos Ribeiro, Márcio de Melo, Rita Limberti e Carlos Botkay.

Jaider vai falar sobre lendas e mitos da região

A seguir, uma entrevista com Jaider, o poeta descendente da etnia Wapixana. Se quiser depois trocar ideias direto com ele, manda um e-mail para es.b@hotmail.com.


Surpreso por ter sido selecionado pela Funarte?

Sim, muito. Especialmente por ser um concurso nacional de ampla divulgação e bastante concorrido. Também por ter sido a primeira vez que escrevi um projeto para a elaboração de uma obra de literatura. Surpreso pela oportunidade que o Brasil tem dado para se conhecer melhor, conhecer melhor seu povo e suas identidades regionais. Surpreso por protagonizar a democratização das oportunidades, mesmo achando que isto deve ser ainda maior.

Qual será a temática e gênero do projeto selecionado?

O projeto se chama: Terreiro de Macunaima - mitos, lendas e estórias em vivencias. E a proposta foi a apresentação de um livro com dez contos que registrará alguns mitos, lendas, estórias e passagens do cotidiano roraimense, manifestados em comportamentos e costumes variados. O teor dos contos busca valorizar a tradição de contar estórias e avivar na memória o universo especial das vivencias tradicionais. Um mix de realidade e fantasia. Esperem!

Como nasceu a idéia de elaborar esse projeto?

Estava com uma boa produção de textos e muita vontade de publicar alguma coisa, algo que me transportasse de novo para os dias no campo, e o contato com as pessoas, em especial os idosos e bem vividos, que terão participação fundamental na construção e consolidação deste projeto, pois como disse, para manter vivos os mitos e lendas, devo estar mais próximo de quem ainda os guarda e vivencia. Ao conhecer o edital, ví que muito do que eu queria enquanto escritor poderia se tornar realidade com o apoio oferecido pelo MINC. Acreditei e mergulhei na ideia do projeto.

Há quanto tempo você mexe com essa tal de literatura? Ou é a tal da literatura que mexe com você?

O meu primeiro contato com a literatura foi como ouvinte, quando meu avô, um wapixana velhinho reunia os netos em volta da rede e contava estórias fantásticas criadas por ele mesmo uma vez que não dominava a leitura. Deste contato descobri que queria ser também um contador de estórias e fui buscando um envolvimento maior. Na escola e na faculdade sempre escrevia, mas guardava para mim. Aos poucos fui mostrando meus textos e recebendo retornos positivos pelo conteúdo dos escritos, daí com mais segurança tenho intensificado o exercício da escrita desde 2007.

Você foi um dos premiados este ano no Concurso de Poesias do Sesi. Já havia recebido outros prêmios?

O primeiro prêmio que recebi pelo trabalho de arte foi uma panela de barro, quando fiz um desenho num congresso de catequistas indígenas ali na comunidade Canauaní. Quando cheguei em casa, vi que a panela esta rachada, mas gostei do prêmio, muito original.

Geralmente, qual é a temática de suas poesias?

Tive a felicidade de nascer e viver toda a infância e juventude no interior do estado, com todas as boas coisas que só mesmo vivendo para saber. O contato direto com a natureza, a interação e harmonia com o meio ambiente e o romantismo que resume tudo isso tem forte influencia sobre minha produção artística. Mesmo sabendo que a poesia pode ser triste, dolorosa, trágica, prefiro a poesia que conforta a alma e valoriza a beleza da viver.

Confira a poesia CABOCAGEM, premiada no Concurso de Poesia do Sesi 2010:

Sou desses campos montanhas e vales
Cato mirixi no chão ciscando folhas
Encho a mão jogo na boca e cuspo os caroços
Descanso à sombra do caimbezeiro
No ardor do meio dia mergulho num lago
Deixo o brilho do sol na água dourar minha pele fortificar meus cabelos
Ando pareço sem rumo mas sempre me acho no fim do dia
O vento apaga meu rastro recém nascido assim ando sempre à frente
Não faço cerca não mato sem fome
Trago peixe na enfieira carne seca e moqueada pimenta à cartucheira
Farinha beijú pajuarú
Casa de parente é casa nossa
Visita longa fogo feito rede atada
Mulheres em fila na catação
curumins praticando danação
Roça grande ajurí juriti massa no tipiti
Rio cheio canoa desliza silenciosa à sombra de copaíbas
Cuidado desvia do jauarí pega arapari flexa caparari
Bichos despertam em fúria.
O vôo dos patos assusta o jacaré
Mergulhando espera a calmaria
Iguanas ao sol enganam gavião com suas fantasias de cores
Tô aqui tô ali
sou verde sou o que precisa ser
Lago secando fazemos barreiras
Batemos água botamos timbó
O peixe sobe mambembe já esperava por este dia
Pés íntimos dos campos ornados hora por lama hora poeira
Cruzam e descruzam
Caminhos entrecortados por linhas sinuosas de buritizais
Vou pego palha
Os frutos caem
Mordiscados por maracanãs frenéticas
Me perco no meio do brejo mato alto
Me encanto com tudo que vejo
E tudo que vejo vejo desde meu nascer
Pegadas de porco do mato cheiro forte olhar austero
Tamanduá percorre seu território
Cupim aqui formiga ali
O dia encolhe a sombra muda de lado
Os ventos trazem a calma e armadilhas da noite
Olhos vagos na escuridão vento frio
Canaimés rasga mortalhas murucututus
Bichos da noite filhos da Mãe da lua Cruviana
Estrelas vigiam atentas mas quando piscam algo acontece